A maravilhosa vida sexual dos outros.
Quem divulgou o clipe das atividades sexuais do galã das adolescentes, Rob Lowe, inaugurou uma era. O ator, que até então trilhava uma carreira meteórica e ascendente, de repente se viu traído pela soma dos elementos que o fizeram ascender: o amor de uma adolescente e um video tape. A mocinha que, dizem, ele compartilhava com um amigo no tal video era menor, tinha dezesseis anos. Pelo menos vinte anos de geladeira se seguiram ao tal evento. Dizem que no filme a coisa extrapola e fica evidente a bissexualidade do ator, mas não sei se é verdade. O falto é que há vinte anos não se supunha que atividades sexuais de celebridades fossem mesmo tão interessantes assim para o público. O mundo das fofocas, a maravilhosa vida dos outros, ganhou uma importância monumental nos últimos anos. E a atual facilidade em se fazer fotos e videos, somados ao interesse crescente em banalidades e frivolidades alheias, fez deste segmento um dos maiores atrativos dos meios de comunicação da era pós web. Verdade seja dita: a internet tem como principal atividade a procura por pornografia. E pornografia com famosos é uma realidade. Marilyn Monroe parece ter sido quem inaugurou o negócio. Um clipe seu de 15 minutos, filmado em 16mm e p/b, foi leiloado recentemente por U$ 1,5 milhão. Nesta fita a grande estrela praticava um bolagato (ballcat) em algum cidadão que não mostrava o rosto mas que podia ser, de acordo com o FBI pode ser algum dos Kennedys. Sabe-se que alguns membros, ôpa!, da família andaram por ali. Ela se empenhava na atividade sem jamais olhar para a camera. Era uma ótima atriz. Resta saber o que quer alguém com um filme mudo em preto e branco de um mito da sétima arte? Se for para alegrar seus momentos solitários, acho que a oferta na internet é muito vasta. E poupa centenas de milhares de dólares. O que intriga é o fato de que um filme como esses ser até pouco tempo atrás tratado com seriedade, mas depois que Rob Lowe afundou sua carreira o que se viu foi o contrario: Pamela Anderson passou de coadjuvante do seriado Baywatch para a condição de megastar por causa do seu filmezinho de lua de mel com o cara do Motley Crue. Pelada todo mundo já tinha visto mas em atividade não. Acho que as massas aprovaram o jeito dela atuar na intimidade. Com Paris Hilton foi diferente: ela também foi alçada aos picos da fama mas, por outro lado, o cara que vai comer já sabe que ela é fraquinha. Em todos os sentidos. E aí reside o espanto: não é atriz, não tem um corpaço, não tem nenhum talento evidente, é ruim de cama ou parecia estar muito desanimada no dia em que resolveu graver seu sextape. Afinal, por que então Paris Hilton é tão importante? Porque é famosa. E se expõe abertamente de frente, de costas e assim por diante. Alguns filmes destes foram evidentemente divulgados contra a vontade de seus personagens. Porém é de se indagar o que leva um famoso a fazer um filme desses quando se sabe o risco? Mas que risco? Não há risco algum a não ser o de se ficar cada vez mais famoso uma vez que a mídia só pede isso: exposição! E com isso já dá pra desconfiar que a quantidade de “sex tapes” que rolam por aí já não sejam nem acidentais e nem vazados mas clipes promocionais de celebridades que querem apimentar seu portfolio e criar uma aura de “transgressividade não-intencional” ou simplesmente pegar um elevador para o sucesso. E no Brasil? Há pouco tempo a grande expectativa do homem comum era saber quando a mocinha da novela ia mostrar suas intimidades na revista ou no cinema. Agora essa expectative migrou para “quando será que essa celebridade vai fazer um filme de sacanagem?’. Alexandre Frota deu o pontapé inicial e agora todo ex-BBB sabe que ainda há essa luzinha quando os holofotes se viram para outro lado. É só esperar. Daniela Cicarelli não queria ninguém da imprensa no seu casamento espalhafatoso com Ronaldo. Um caso espetacular de tão anacrônico! Queria a benção do papa, queria se casar em um castelo francês, sendo que nem ela e nem no noivo e muito menos os convidados moravam lá. E proibiu a imprensa de chegar perto do castelo. Meses depois já tinha sido fotografada beijando uma meia dúzia de homens e protagonizou um tórrida cena sexual em público. Curiosamente no mesmo país em que seu “ex” atuava. Será que ela imaginava ser uma desconhecida nas praias espanholas? Será? O resultado official foi que ela ganhou as páginas do mundo todo com o evento e por ter tirado do ar o site youtube, onde o filme estava sendo visto. Com Ronaldo a coisa foi pior. O que ele fez não foi registrado por nenhuma câmera. Exatamente por isso, por não haver uma versão plausível sobre o que aconteceu, durante mais de quarto horas numa quarto de motel sarapa, a mente das massas se rotorce em fantasias delirantes e abjetas. Embora os fatos revelassem que ele estava sendo vítima de um crime, que um dos travestis assumisse aos quarto ventos que estava fazendo as vezes de cafetina e traficante e depois tentando extorquir, os olhos de todos se voltaram contra o fenômeno. Sair com aquele pessoal todo de uma vez não é mesmo pra qualquer um! Ver a vizinha trocando de roupa ao longe, ouvir os gemidos do casal do quarto ao lado no hotel, ver uma nesga de calcinha no metro, nada disso parece mais evocar a fantasia de ninguém. Agora todos já conhecem, assim que aprendem a mexer num computador, como é a cicatriz da cesariana de Britney Spears, como é o pau reconstuído de John Bobbit, como é a conga-la-conga da Gretchen e assim por diante. É rápido, é raso, é insosso. Não sei se há algum prazer sexual ao se penetrar assim na intimidade alheia. E, se há, isso revela a aridez solitária da própria intimidade. Ou, por outro lado, talvez saber que no fundo todos os humanos são mesmo esquisitos faça a massa se sentir melhor com seus pequenos demonios internos. Sei lá. Pra dizer a verdade eu quero é que se foda. Tenho saudade do Zéfiro e de mulheres que ficavam ruborizadas na primeira vez em que se despiam. Acho que os anos estão passando pra mim.
Escrito por Leo Jaime às 5:03 PM
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Texto de Cora Ronai
Canudo e competêcia (Cora Ronai) “Você tem que escrever sobre esta barbaridade!” – disse o amigo do meu amigo. – “Acabar com a exigência de diploma para os jornalistas... a que ponto chegamos! Agora qualquer um pode ir para a redação e se dizer jornalista. Como é que vai ficar isso?” Gostei da sugestão; mas minha opinião deixou-o desconcertado. É que sempre fui contra – radicalmente contra – a exigência de diploma de curso superior para o exercício da nossa profissão. “Então você acha que ninguém precisa estudar para ser jornalista?” Pelo contrário! Ainda que não entenda o que diplomas têm a ver com estudo, acho que jornalistas precisam estudar muito, e sempre. E acho bom que esqueçam este verbo, “estudar”, em geral ligado a algo que se faz por obrigação. Jornalistas de verdade lêem e se informam contínuamente: por hábito, por segunda natureza, por uma curiosidade intelectual incontrolável que os leva a se interessarem por tudo, ou quase tudo. Diploma não leva ninguém a fazer isso, a ser assim. O problema é que o Brasil cultiva a noção de que o diploma de curso superior é sinônimo de conhecimento. Como o nosso ensino básico é péssimo, e dificilmente se aprende alguma coisa na escola, sobra a ilusão de que a passagem por uma universidade nos tornaria automaticamente cultos e educados -- e tão superiores aos demais, que passaríamos a ser até merecedores de prisão especial. É por isso que algumas pessoas insistem em ver, no fim da exigência do diploma, uma espécie de “rebaixamento” da profissão. Elas acham que, se o diploma de jornalismo deixou de ser obrigatório, nenhum diploma (leia-se conhecimento) será necessário. Não pode haver equívoco maior. A única coisa que o diploma de jornalismo garantiu, até aqui, foi uma reserva de mercado injusta e pouco democrática. As redações vão ficar mais ricas e diversificadas com o fim dessa burocracia anacrônica, que pressupõe que apenas quem fez comunicação está apto a lidar com a informação. Acontece que o jornalismo é importante demais para ficar restrito a um grupo homogêneo de pessoas, sem a mínima brecha para variações. * * * Paradoxalmente, o fim da exigência do diploma deve melhorar muito a qualidade dos cursos de comunicação. Como eles não são mais obrigatórios, precisarão ser suficientemente ágeis e inteligentes para conquistarem os alunos e as empresas de comunicação. Que continuarão, é claro, a recrutar a maior parte dos seus quadros entre os formandos. Nos últimos dias, tenho visto muita gente lamentando o tempo que perdeu na faculdade para conseguir o diploma; mas qualquer curso que alguém lamenta ter feito não precisava, nem merecia, ter sido feito. E me lembro de Mark Twain, que dizia que nunca deixou sua escolaridade interferir com sua educação. Outra coisa que ouvi e que encontrei aos montes na internet foi a declaração estapafúrdia de que os cursos de jornalismo seriam imprescindíveis por “ensinar ética”. Como assim, “ensinar ética”?! Ética vem de casa, da vida inteira; não há curso que possa suprir essa lacuna. Meu conselho para quem acredita nisso é esquecer o jornalismo e entrar para a política. Ser jornalista, enfim, não vai ficar mais fácil. Vai ficar cada vez mais difícil. O que vai ficar mais fácil é se dizer jornalista, mas não vejo em que isso possa diminuir qualquer um de nós. Ser escritor, por exemplo, é para poucos, embora uma quantidade infinita de pessoas bem intencionadas se atribua o ofício. Ter diploma de escritor não mudaria em nada a sua falta de talento. Ou de leitores.
Escrito por Leo Jaime às 1:26 AM
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
O carro ao lado
O carro ao lado
Sete da manhã e já estou na rua em busca do ganha-pão. O trânsito é lento, faz com que alguns carros me acompanhem por boa parte do trajeto. Vou da Barra até Botafogo, no mínimo quarenta minutos. Ao meu lado, observo um carro em especial. Dentro dele, parte deste tempo e caminho, um casal vai quebrando o pau. É uma guerra. Sete da manhã e ela grita e movimenta os braços freneticamente. Quer ganhar a discussão, é evidente, ou simplesmente fazer parecer aos outros - que, como eu, assistem à cena - que é ela quem tem a razão. Como se isso diminuísse sua dor. Como se algo melhorasse instantaneamente. Como se nas contas de amor houvesse lucro ou perda de uma só das partes. Dança-se o tango. Há que se dançar a dois. Fiquei imaginando a noite anterior daquela dupla. Ele estava possesso, mas sua tentativa era a de cortar o papo, conversar não adiantava. Virava o rosto, tentava freiar o assunto, freiando o carro. Queria estar em outro planeta. Ela usava a língua como metralhadora e não ficava um segundo sem atirar. Com medo de dar a brecha e ser varada pela bala fatal. Todos condenam o tapa na cara, a bolacha, o corretivo braçal. A tortura psicológica, emocional, feita pelo inimigo íntimo, esta é comum no uso doméstico. É uma arma liberada e cotidiana. Pais, esposas, irmãos, todos, dela, lançam mão. Ainda que suas marcas fiquem gravadas para sempre na alma, isso não poderá ser comprovado pelo IML. Não dá processo e vizinhos não vêem. Seguiam os dois, magoando-se . A noite anterior nada tinha a ver com aquilo. Aquela dor era antiga, ancestral. O sol impunha-se nesta manhã, indiferente. E meu peito, apunhalado por esta cena, sangrou tristeza por todo o dia. Cheguei em casa e vi a Nara, minha gatinha, com o Punk, seu filhote, adormecidos no sofá. Abraçadinhos como namorados. Cúmplices de um amor irracional. Em paz.
Escrito por Leo Jaime às 6:38 PM
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
|
|
 |
|