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Novidades Ainda que seja famosa e tradicional a rivalidade entre paulistas e cariocas, continuo achando que o melhor é a ponte aérea. Corrijo a frase, desatualizada: melhor seria o trem bala que não para por causa de uma gota d’água e não atrasa mais que dois minutos. Pois bem, minha argumentação é essa: quanto mais próximas e possíveis, melhor. Até para quem vive em outros lugares do país, igualmente belos e interessantes. Essas duas cidades, pelo que são, valem visitas constantes. Parece que, ao dizer isso, estou chovendo no molhado. Espantoso que não seja: a única coisa comparável ao número de paulistanos que não conhecem o Rio é o número de cariocas que não conhecem São Paulo. A ignorância é mãe do preconceito. Tenho um amigo carioca que descobriu São Paulo. Veio, já, para alguns finais de semana e a cada passagem sua paixão aumenta. Não é o típico garoto de praia, o meu amigo, é mais daqueles que só se bronzeiam com a luz da tela do computador. Praia não faz a menor falta. Assim como tenho amigos aqui que não conseguem imaginar uma viagem que não seja para pegar onda. São aqueles que acham Paris, Nova York ou Londres muito sem graça, ou melhor, sem ondas. Volto ao meu amigo. Encantado com a cidade, restaurantes, vida noturna e com o ritmo da cidade, ele começa a sonhar com uma mudança radical. Pois eu acho que a mudança nem seria tão radical assim. Mas é preciso adaptação, e isso ele começou a reparar. As perguntas eram várias, e algumas eu pude responder, outras não. Ele reparou que a língua é outra. As cidades ficam perto mas suas línguas nem tanto. Ele observou, num restaurante em que festejavam um aniversário na mesa ao lado, que em São Paulo se canta, após o tradicional Parabéns a você (ele jurava ter ouvido Parabéns Pra Você!) que o pessoal cantava “ é pique, é pique, é hora, é hora, é hora...” e ficou estupefato. Queria saber por que tinham substituído o “é big, é big, é hora, é hora...”, segundo ele, original. Pique do quê? Era uma sugestão para o aniversariante sair dando um pique ou para que brincassem de pique em seguida? A idéia de ser big, grande, parecia muito clara e o pique não fazia sentido nenhum. Pronto, o assunto começou e várias outras diferenças seriam notadas dali em diante. Achei melhor citar algumas coisas para que ele entendesse quando alguém dissesse sem ter que , como fez no aniversário, perguntar aos cantantes o porquê da mudança da letra. Tatuapé, não é exatamente oxítona. Fala-se Tátuapé, com ênfase no Ta. Pacaembu não é Paca, é Paquembu. Professor é P´sor e pneu é peneu. Para alguns é adevogado, mas acontecendo é sempre acont´cendo. Meio-fio da calçada é guia e o sinal de trânsito é farol, talvez por causa do formato antigo, usando a peça do fusquinha; ficar de cabeça para baixo é ficar “de ponta cabeça” embora a expressão não faça o menor sentido. Quando alguém vai trocar de roupa diz que vai “se trocar”. Isso não significa que vai chamar alguém para ficar em seu lugar. Em compensação ninguém diz que vai se lavar, diz que vai tomar banho. Mas isso é em toda parte. Quando alguém usa uma blusa de lã diz que está de malha. Quando está com uma blusa de malha diz que está com uma blusa. Malha não é aquilo que se usa pra fazer camiseta, ou t-shirt, é, para os paulistanos, o que se faz ao tricotar. Faz sentido. Acho até que a teia da aranha é uma malha, como a fina do imposto de renda. É uma forma e não um tecido. Tudo isso deixava meu amigo boquiaberto. E não menos interessado. Ao final, ele disse, repleto de satisfação: “as coisas fundamentais na vida do homem são o pai, a mãe e a novidade”. As diferenças podem ser o principal atrativo.
Escrito por Leo Jaime às 10:02 PM
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